“Se Renato Russo vivesse nos anos 2000 seria o emo dos emos”, diz Tavares da Fresno

Foto by Pedro Cupertino on Flickr
A cena emo é, certamente uma das mais fortes e culturalmente relevantes do nosso tempo. Você pode até não gostar, mas jamais poderá ignorar esse fenômeno que é, além de responsável pela venda de milhões de álbuns, criador de novas tendências estéticas e musicais. Confesso que, como muitos, meu interesse para saber o que estava acontecendo dentro dessa nova onda era praticamente inexistente. Havia uma áura de pré-conceito a qual alimentava justamenate por não entender como as coisas realmente funcionavam ali.
Para explicar, ninguém melhor que um dos integrantes de uma das bandas emo de maior sucesso no país: Tavares, baixista da Fresno. Indicados em duas categorias do VMB 2008 (Artista do ano e Hit do Ano por Uma música), o grupo assumiu um lugar privilegiado na mídia nacional ao mesmo tempo que é reconhecido por ela. Eu, no Rio Grande do Sul e Tavares, em um dos cada vez mais raros momentos de folga, em sua casa em Sampa batemos um papo de quase duas horas.
Com exclusividade, Tavares falou sobre o mito criado no movimento emo, o assédio das fãs, seus ídolos e sobre a relação com Chitãozinho e Xororó durante e após o mega sucesso do Estúdio Coca-cola Zero.
Diferente de uma entrevista, pela primeira vez vou evitar interferências características do formato ping-pong (perguntas e respostas). Utilizar as citações em um texto era uma alternativa caso este não tivesse ficado absurdamente grande. Então decidi fazer diferente. Desfaça-se de todo pré-conceito e enjoy yourself. Com a palavra, Tavares.
Sobre o conceito de Emo
“Se Renato Russo vivesse nos anos 2000 seria o emo dos emos”
Na verdade o emo vem de toda uma questão hardcore que começou no final dos anos 80. No ínicio dos 90, diversas bandas vieram com a essa temática. Toda banda pop rock que existe hoje, que está na midia como Panic at the disco e Avril Lagvine, por exemplo, estão ancorados no visual e na atitude das bandas emos. Nesse sentido houve uma revolução cultural muito intensa.
O emo acabou fazendo música romântica dentro de um genero que não aceitava isso muito bem. Dai a expressão emotional hardcore. Só que depois tudo isso se perdeu. Toda a música moderna, de uns 10 anos pra cá, está, em algum momento, baseada no emo, seja estética ou liricamente. Hoje em dia, até mesmo as novas bandas de metal carregam o visual emo e o seu padrão de composição musical.
“Hoje a música pop, o emo e o rock são a mesma coisa”
Em tudo o que vejo de novo consigo achar essas referências. Se o cara falar sobre “a cena emo” eu nao me importo porque sei que a pessoa sabe do que está falando: é uma cena que abrange muitas bandas, algo tão grande quanto foi o grunge nos anos 90. É só lembrar que, do meio dos anos 90 pra cá, tudo ou era grunge ou derivado do grunge ou new grunge. Nesta época o grunge também já tinha se perdido ao ponto de dizerem que Stone Temple Pilots era a mesma coisa que Nirvana. Na verdade, todas as bandas cairam num nicho de mídia e foram classificadas da mesma forma.
“O emo é a moda dos anos 2000. Isso inclui música, visual e até literatura.”
O cara pra ser emo não precisa ser tão extremo por pouca coisa. O emo pra mim é um estilo o musical, quando muito, a moda dos anos 2000, como eu disse anteriormente, mas que não deve entrar no psicológico de ninguem. Ninguém precisa cortar os pulsos.
“Se eu quissesse falar de política, seria um politico.”
Na verdade, eu não estou a fim de falar de problemas financeiros nas minhas músicas e, embora seja um cara politizado, não estou a fim de falar de politica também. Minha função no mundo não é essa. Se eu quissesse falar de política, seria um politico. Uma coisa que achamos legal falar é isso: de relacionamentos, de amor. Se pararmos pra pensar, a vida gira em torno disso. Sou fã do Renato Russo mas, se tu fores analisar, ele era um emo. Se ele tivesse vivido nos anos 2000 ele seria o emo dos emos.
O visual
Nosso visual é muito sincero por influências de coisas que eu acho legal. Agora eu te pergunto: quem disse que ter suiça grande é ser emo? Eu acho mais legal dizer que o meu cabelo vem do Cavaleiros do Zodíadicos (risos), mas dai é muita loucura. O meu visual eu fui montadando com o tempo.
Eu trabalho com a imagem da mesma forma que Augusto Licks sempre usou o cabelo para trás, óculos e camisa branca. Acho que para marcar, você tem que trabalhar tudo. Pra mim, nada mais rock n roll do que o [Humberto] Gessinger usando all star e bombacha.
Nota: lembro que uma das coisas que mais me chamou atenção quando vi o Tavares, no final de junho, foram as tatuagens que ocupavam cada centímetro quadrado dos dois braços. O baixista confessou que era impossível contar quantas tinham no corpo, mas faz uma estimativa de que já sentou na cadeira do tatuador umas 45 vezes!
2008: O melhor momento da banda
O que a Fresno tem de diferente das demais bandas é que ela cresceu muito e fazia um sucesso muito grande tanto dentro de Porto Alegre quanto fora. A maioria das bandas primeiro se estabelecem dentro da sua cidade. Depois ganham o Estado e depois o País. No nosso caso foi diferente. A midia portoalgerense fechou os olhos pra nós. Ela não estava ligada no que estava acontecendo. A Fresno foi uma das primeiras bandas que estorou na internet no Brasil. A internet é a nossa ferramenta chave. O que muitos não sabem é que esse espaço é nosso há muito tempo. Agora que a grande midia como a televisão, por exemplo, está nos conhecendo.
O assédio:
“Se eu fosse mulher eu já poderia ter disparado uns 50 processos por abuso sexual.” (risos)
Em média, 20 pessoas batem na minha porta todos os dias ou ficam ali, na espera de eu sair ou chegar. Fatalmente tu perde a privacidade. Um dia, eles falam com o um vizinho que tu não conhece, conseguem entrar na casa desse vizinho e acabam visualizando teu quarto, por exemplo. Não tenho um terço da fama de várias pessoas que estão na mídia há mais tempo, mas eu saio ‘espiado’. Tudo o que faço acaba sendo sempre vigiado.
Cantadas são normais. Se eu fosse mulher já teria disparado uns 50 procesos por abuso sexual. Mas o mais estranho são aquelas pessoas que querem se passar por alguém que finge não te conhecer. Pessoas que tentam me convencer que o fato de estarem perto de você é uma coincidência. Muitos chegam a criar uma nova vida apenas para, por meio dela, poderem chegar perto de você. Isso é muito louco”
A “responsabilidade” e os ídolos
Assumi este papel para algumas pessoas, o mesmo papel que os meus ídolos assumiram para mim. O cara, ao longo da vida tem vários ídolos que vão se destacando pela importância musical. Eu, na minha vida, não tenho como nao citar o Paul McCartney.
“Duca e Humberto mudaram a minha cabeça quando eu comecei a ouvir música.”
O Pouca Vogal vai ser o acontecimento do Universo!!Ninguém entende como estou vendo esse projeto. São os meus dois maiores ídolos.
Pergunto: Mas, Tavares, lembro que, muito antes da tua carreira musical tu já conhecia o Duca e vocês eram amigos…
Sim. Inclusive já trabalhei com ele no estúdio. Ficamos bem amigos. Temos uma relação de amizade, mas o cara ainda é meu ídolo. Não consigo tratá-lo com normalidade.
O Humberto também. São dois caras que respeito muito. Não consigo falar com o Duca dispensando as formalidades. O Humberto eu nem quero conhecer, para tu teres uma idéia. Tive várias oportunidades de conhecer o Humberto, mas eu não quis. E não é nem medo de me decepcionar, mas porque ele é um grande ídolo. Tenho a coinciência de que sempre se deve separar o trabalho do teu ídolo da vida pessoal dele. O Duca é um cara que eu respeito muito e todas as vezes que falo com ele tem sempre aquela questão do respeito e uma certa honra. O respeito não acaba. Mesmo tu sabendo quem ele é, seus defeitos e qualidades, isso não acaba.
Nota: quando conversei com Humberto na semana seguinte, comentei com ele o fato do Tavares não querer sequer conhecê-lo por ser seu ídolo, ao que Humberto, surpreendentemente, respondeu: “Eu entendo ele, porque sou assim também” (risos).
Sobre o Estúdio Coca-cola com Chitãozinho e Xororó

Foto by Luringa on Flickr
“Foi a coisa mais legal do mundo!”
Depois que se tem uma certa idade, vê-se que preconceito musical é coisa de adolescente. Como dizer um não para Chitãozinho e Xororó se foi uma das coisas mais legais que já fizemos? Quem iria dizer o contrário? Ter uma banda e ter a oportunidade de tocar com os caras mais importante do sertenejo. Dai tenho que aguentar ouvir coisas de gente que vai em canal de televisão para dizer “Não adianta ter os braços tatuados e tocar sertanejo” . A questão é que, tocar com Chitãoxinho e Xororó foi tão legal, mas tão legal que se a gente tivesse tocado de graça, num galpão e nínguem ficasse sabendo, iríamos curtir do mesmo jeito.
A melhor versão do especial na opinião dessa blogueira
“Os caras são o retrato da humildade.”
São muito gente boa. Os músicos deles sao um absurdo de bom e… cara, foi muito fácil, muito barbada. Chitãozinho e Xororó são as melhores pessoas do mundo. Fomos apresentados para eles e passado um tempo, não demorou muito para eles começarem a entrar na nossa e falar palavrões também (risos).
Tem muita coisa bizarra acontecendo na minha vida: a fama é uma coisa bizarra. Tocar para muita gente é algo bizarro. Mas nada, absolutamente nada, foi tão bizarro do que ter se tornado amigo de Chitãozinho e Xororó. Não foi só o lance do Coca-cola. Vamos fazer outras coisas juntos. Eu estou aqui conversando contigo e olhando para os potes de extrato de própolis que eles fabricam e que me mandaram de presente. É muito louco e muito legal.
Os planos

Foto by Luringa on Flickr
Eu estou escrevendo muita coisa nova, compondo para muita gente. Estão entrando vários trabalhos de pessoas muito bacanas. Quero me concentrar mais nisso porque o meu tempo livre é escasso.
Na verdade, trabalhar com música é ter tempo livre… sim e não. De repente, trabalhar 18 horas com música náo é tão chato como se eu fosse trabalhar 18 horas com qualquer outra coisa. Tu aguenta porque tu está tocando, está fazendo música, é algo que você gosta. O que quero mesmo é produzir. Já produzi a Fresno em uma época que não tinha toda essa estrutura para gravar. Vou produzir o álbum do produtor Rodrigo Castanho… É algo bem grande.
E quem duvida?













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