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2008 – O fim da inocência musical


[3 Jan 2009 | 10 comentários | Piero Barcellos]

Eu não gosto da idéia (minhas idéias são com acento e a reforma ortográfica que se dane) de marcar determinadas épocas pelo ano ou mês que aconteceram alguns fatos. Mas agora, que estou com os dois pés fincados no ano de 2009, posso olhar para trás, colocar as mãos na cabeça, olhar para os céus e perguntar num grito lamurioso: “Por que, meu Deus? Por quê?”

Para mim, o ano de 2008 será marcado pelo fim da inocência musical. Como diria o presidente, “nunca na história deste país” se produziu tanto lixo musical. Nunca a música se mostrou tão comercial/industrial quanto agora. E o pior: nunca a mídia deu tanta atenção para coisas que não mereciam chegar aos nossos ouvidos.

Por onde começamos?

CREEEEEU!!!

Tem uma piada idiota que conta a história de um português que foi atropelado por um trem. Meses depois e já recuperado, ele está passeando pela cidade quando vê na vitrine de uma loja um Ferrorama funcionando. Com sangue nos olhos, ele entra na loja e destrói o brinquedo. O vendedor pergunta porque ele está fazendo isso, e a resposta foi: “a gente tem que abater esses bichos quando ainda são filhotes! Depois que cresce, ninguém segura!”. Bom, provavelmente você, assim como eu, também assistíamos na TV os finados programas da Xuxa, Xuxa Hits e Planeta Xuxa. Lembram crianças? Foram nesses programas que a onda funk começou, com “a voz da periferia” cantando os hinos do tráfico. Ou você ainda vê uma letra como esta de maneira inocente? Mas enfim, se a Raínha dos Baixinhos divulgava o funk, que mal teria? Pois bem… se a gente não tivesse dado audiência praquela bosta quando “ainda era filhote”, hoje nós não teríamos o MC Créu e seus derivados. Se este não fosse um blog de música, eu poderia me extender e relacionar a divulgação do funk com o aumento nos índices de gravidez na adolescência, casos de pedofilia e criminalidade (moralismo mode ON).

A FRUTEIRA DO MAU GOSTO

Eu sou do tempo em que melancia, jaca, melão e maçã eram frutas que se vendiam na feira, e que deviam ser consumidas rapidamente antes que estragassem. As mulheres frutas que surgiram em 2008 não são diferentes: quando uma estava a ponto de apodrecer e sumir, surgia outra. Eu, como macho barbaridade, não posso negar que a volúpia das referidas mulheres chama a atenção. Mas basta abrirem a boca… Algumas se aventuraram a cantoras, como a Mulher Melancia, que não obteve grande sucesso (ufa!).

ISSO É CALYPSOOOOOO!!!

O ano velho ficará marcado também pela ascenção nacional do Calypso, banda paraense cujo som leva o mesmo nome da banda. E Calypso para mim é uma faca de dois gumes, porque é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom por ser uma banda de sucesso que não pertence ao eixo Rio-São Paulo-Bahia; por ter um relacionamento próximo com os fãs, e por desenvolverem um sistema de gestão de carreira sem serem vinculados a grandes gravadoras – produzindo discos, DVDs e shows mais baratos para a população. Porém, musicalmente falando é pobre. Joelma não tem voz e não sabe cantar. Além disso, foram protagonistas do pior encontro musical que já vi na vida.

TCHUBARUBA!

Mallu Magalhães é o maior exemplo de como a mentalidade pseudo-intelectual da classe média-alta brasileira consegue ser tão estúpida musicalmente. O hype todo surgiu porque o crítico musical da Folha viu a moça num concurso musical. Desde então, a menininha de 16 anos que canta folk e faz cara de quem mijou nas calças ganhou status de talento precoce. Ora, num Brasil de Calypsos, Créus e afins, a menina que compôe e canta em inglês pode ser um grande contraponto cultural, não? Só que a nossa “Bob Dylan tupiniquim” não é nada disso. São letras vazias, que não dizem nada com coisa alguma. E a melodia não é algo muito complexo de se fazer, tampouco inovador.

Minha única esperança na menina estava no fato de que ela seria o agente revolucionário da indústria fonográfica. Mallu Magalhães é da geração MySpace, onde as músicas estão na rede, e ninguém precisa pagar nada para ouví-las. Ela não precisou vender CDs para tocar nas rádios. Imagine o cenário onde o cara que baixa músicas em rede P2P deixa de ser tratado como criminoso para ser assediado como consumidor? Seria o fim da pirataria, dos valores altos por uma bolachinha de acrílico, e haveria o aumento no número de shows pelo país! Finalmente o talento e a técnica iriam vencer o capitalismo e a exploração! Mas aí chegou uma certa empresa de telefonia móvel e acabou com a minha utopia…

Só espero que o meu primeiro post de 2010 seja diferente, e eu possa dizer que 2009 foi um ano bom!

Falando nisso…

Este é o meu primeiro post para o Hit na Rede. Sei que alguns, principalmente os fãs dos artistas citados, dirão que fui, no mínimo, amargo em minhas palavras. E olha que eu tinha muito mais coisas para escrever (nem falei dos emos e dos indies)! Mas prometo que na próxima vez farei textos mais curtos e menos críticos, falando sobre uma das minhas paixões – o bom e velho Rock’n'Roll!

pierobarcellos-48Piero Barcellos é colunista convidado superespecial. Além de ser editor do Blog do Piero, escreve no Rock n’ Talk e na Void. O post acima é de responsabilidade do autor e não reflete a opinião da autora do blog, muito embora ela concorde com quase tudo que ele escreva.

 

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  • http://dianahb.wordpress.com/ Dianah B

    Como diria aquela célebre frase:
    “Falou bem e não cuspiu em ninguém”

    E olha que tu não sabia que chegaria Restart e Cine …o que será de nós em 2011 ou 2012? Acústico Restart? Estúdio Coca-ColaZero com Mallu Magalhães e Créu? Só o tempo dirá …

    Parabéns pelo post! Dá alegria – e alívio! – ver que ainda existem pessoas com opiniões próprias no Brasil.

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  • Rita

    Só pra constar: “ond eh q eu assino??” Se fizer um documento com esse texto eu assino e (figuradamente) coloco uma gota de sangue!

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  • Jauna

    Sei que estou atrasada nos comentários, mas queria muito te dizer que o ano de 2009 vai ser um marco em nossa história cultural como o ano do ridículo, pois esta tudo muito ruim, músicas, comerciais, programas de televisão e genéricos. Eu não sei por quantas anda a estatística, mas a falta de leitura dá nisso.
    Tu não és amargo, és sensato.
    Abs,

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  • Pingback: Mallu Magalhães e Faustão: um duelo em busca do cálice da vergonha alheia | Hit Na Rede

  • Pingback: Ouvindo.com

  • Carol

    Tira bom, hein, Cler? heheh Adorei essa comparação..

    E parabéns ao Piero pelo ótimo texto (especialmente sobre a Mallu Magalhães) e a Cler, por tê-lo convidado ;-)

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    Cler Oliveira Reply:

    Eu era fã do Piero muito antes dele saber da minha existência :) Honrada de te ver por aqui, Carol! Beijos (e vê se faz teu blog logo!)

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  • http://piero.jor.br Piero

    Cara, CH&X e Fresno foi muito bom. Bem, eu tenho uma teoria de que o emocore nada mais é do que rock com letra de música sertaneja, talvez por isso tenha ficado legal.

    E eu laento não ter falado do indie rock. Mas sentar o pau nesses caras renderia um post só para isso. Huahuahahaha!

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  • http://jcapone.org Thi

    Bem, olhando pelo lado otimista: tivemos a sorte da onda reggaetone (ou o “funk do resto da América Latina”) ter pego aqui no Brasil, senão amargaríamos “A Dança do Coala” e “A Dança do Canguru”, com toda a certeza. Estúdio Coca-Cola achei mancada, em quase todas as edições, por não darem a mínima pra Música em si. Ou alguém acredita que Chitãozinho & Xororó toparam tocar com Fresno apenas para “explorar novos horizontes musicais”?

    Cler e Piero estão de parabéns. Se o HNR fosse departamento de polícia, seria a política do “tira bom, tira mau” =D.

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    Cler Oliveira Reply:

    Hahaha… “tira bom, tira mau”, priceless. Prometo não atirar no meu parceiro por engano.

    Mas só pra discordar um pouquinho… Soube (de fonte segura) que realmente, o Chitão e o mano dele toparam a parada por uma questão de “vamos experimentar e ver no que dá”. Tanto que tá rolando várias histórias a partir daquela edição, que eu particulamente gostei bastante. O que já nao aconteceu com os demais. Mesmo com os Estudios Coca-Cola Shows que ocorreriam. Eram coisas de momento. Enfim, só pra constar a opinião do tira-bom, :p

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