No Caminho da Indiada
Como todos vocês sabem, brasileiro não está acostumado com três coisas: democracia, reflexão e opinião própria. No primeiro caso, dizem que o poder é do povo. Aí, ao invés de se preocuparem com as questões políticas da nação, preferem incomodar as emissoras por conta da onda “politicamente correta”. A mesma onda que impede, por exemplo, que um beijo gay seja dado em uma novela, mas em compensação vê uma cena de sodomia entre dois caubóis uma arte passivel de ser transmitida logo após o folhetim das 21h. Grande ironia.
Da mesma forma, a reflexão não é um exercício tão praticado quanto o futebol. Numa roda de amigos onde o assunto do momento é a trama global (ou recordal, sei lá), sempre tem um ignorante pra dizer que não assiste novela, que isso é uma alienação, etc. e tal. Só que, por mais que uma historinha que dure lá seus três, quatro meses seja muito fantasiosa, há uma relação entre platéia e elenco que não dá pra passar desapercebida. Uma novela é capaz de ditar mudanças de comportamento, seja ela na moda ou numa boa causa, como a doação de medula óssea.
Porém (sempre há um porém), apenas uma pequena parte dessa população consegue estabelecer um filtro entre a verdade e a ficção. São aqueles que não vão comprar determinada roupa só porque a protagonista da novela usa. Ou que não irão repertir bordões de personagens a exaustão. Isso se chama “opinião própria”. Mas aí podemos fazer uma velha relação: brasileiro históricamente sofre de problemas de baixa-estima e precisa ser amado. O povo vê a menininha pobre se dando bem na TV e resolve ser que nem ela. Em tudo. Achando que a sua vida vai mudar também, e que vai encontrar um galâ-príncipe no final. Aí a novela acaba, a moda acaba, e ela tem que começar tudo de novo, seguindo uma nova história.
Mas como este blog é de música, provavelmente você já se pegou cantarolando Beijinho Doce nos últimos dias, não é mesmo? Ou qualquer música do Vitor e Léo. Isso porque a novela A Favorita foi a responsável por alavancar estes hits atuais, principalmente pela trama envolver o conflito entre uma dupla sertaneja.
O problema, meus caros, se chama Caminho das Índias. A novela que irá substituir A Favorita, como o próprio nome diz, terá uma história que passa pela cultura hindu. Talvez você já tenha visto isso em algum lugar, não é mesmo? Lembra da novela O Clone (coincidentemente da mesma autora, Glória Perez), que abordou o islamismo? Não? Então vamos supor que você não goste de novela e não tenha assistido O Clone. Provavelmente você ouviu essa música, senão dançou ela em alguma formatura sob influência do álcool:
Com Caminho das Índias não vai ser diferente. Nós vamos ser saturados por uma onda de músicas indianas em tudo quanto é lugar. Arrisco a dizer que um monte de menininhas passará a aparecer com aquele sinal na testa típico da cultura hindu. E nós, seres reflexivos de opinião própria, teremos nosso gosto musical reprimido em favor da moda, já que estamos em uma democracia onde a maioria escolhe por todos…
A menos que a Glória Perez, ou a pessoa responsável pela trilha sonora seja MACHO de verdade, e coloque no repertório os clássicos hindus que já caíram no gosto popular, e que apesar de ser em uma língua estrangeira totalmente estranha, todo mundo sabe cantar. Tais como::
Chiru – Golimar
Prabhu Deva – Kalluri Vaanil
Prabhu Deva – Urvasi Urvasi
Daler Mehndi – Tunak Tunak Tun
Preparem-se… Só não sei se para rir ou para chorar.
Piero Barcellos é colunista convidado superespecial. Além de ser editor do Blog do Piero, escreve no Rock n’ Talk e na Void. O post acima é de responsabilidade do autor e não reflete a opinião da autora do blog, muito embora ela concorde com quase tudo que ele escreva.










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