Sobre meninos e homens

Essa é uma daquelas histórias que ilustra bem o que é o rock’n'roll. Nos anos 50, grande parte dos programas de TV eram gravados em teatros, com espaço o suficiente para comportar o público. Principalmente quando as atrações principais eram músicos que tocavam um certo ritmo contagiante e, segundo alguns, deturpador de mentes. Naquela noite do dia 28 de julho de 1957 iriam se apresentar no The Steve Allen Show dois artistas. Um deles, negro, mestre da guitarra e já conhecido do grande público, Chuck Berry. O outro, um branquelo, vindo de uma família evangélica, que buscava notoriedade tocando piano. Seu nome era Jerry Lee Lewis.
Os produtores do programa decidiram que Berry, por conta da sua consolidada carreira, faria o show principal, enquanto Lewis faria a abertura para ele. O jovem pianista encarou isso como uma afronta, mas engoliu em seco e disse um “tudo bem”. Jerry Lee não tinha a popularidade de Chuck Berry, mas sua fama de baderneiro e temperamental já era conhecida nos bastidores.
O que aconteceu? Bem, dizem as testemunhas que foi isso:
(Cena do filme Great Balls Of Fire)
E então ele passa por Chuck Berry e diz: “Vai lá e tenta fazer melhor!” Não é a toa que seu apelido na época da Sun Records era “The Killer” (O Matador).
Passaram-se mais de cinquenta anos, e os protagonistas desta cena ainda continuam de pé. Chuck Berry, inclusive, passou por Porto Alegre ano passado – e apesar do peso da idade, provou que ainda consegue mandar muito bem. Jerry Lee Lewis também! Em 2006 ele lançou o CD Last Man Standing (O Último Homem de Pé), dividindo o microfone com diversos músicos. Entre eles, Kid Rock:
Mais do que uma provocação direta aos seus contemporâneos, o título do álbum que vendeu mais de 250 mil cópias nos EUA é uma ironia aos tempos atuais. Na ânsia da ganância econômica, gravadoras insistem nos modelos musicais comerciais para atingir a população. Colocam prefixos ao rock para dizer que é algo novo, diferente. No fim, temos um lixo musical atormentando os ouvidos, que duram no máximo um ano. Amanhã, será que serão lembrados? Creio que não.
Enquanto isso, li na Folha Online que Jerry Lee Lewis, no auge dos seus 73 anos, anunciou que vai lançar um novo album neste ano. E é bem provável que ele não pare por aí.
É isso que diferencia os homens dos meninos. Moleques duram pouco no cenário musical, sendo sucedidos por artistas que também seguirão o “hype” do momento. Todos estes que aí estão, por conta de um marasmo criativo e comercial, sempre ficarão à sombra do último homem de pé. E este, sempre estará olhando para os novos artistas de cima para baixo, dando uma ordem que não será cumprida tão cedo, e que ainda o faz ficar de pé e na ativa:
“Vão lá e tentem fazer melhor”.
Piero Barcellos é colunista convidado superespecial. Além de ser editor do Blog do Piero, escreve no Rock n’ Talk e na Void. O post acima é de responsabilidade do autor e não reflete a opinião da autora do blog, muito embora ela concorde com quase tudo que ele escreva.









