Música para quem não a ouve mas a sente: três videos em Língua de Sinais
A perfeita união entre o som e o silêncio: Três momentos de canções interpretadas com o apoio de Língua dos Sinais.

Quando eu tinha sete anos, dentre as minhas amigas, havia uma menina surda. Muitas crianças não gostavam de brincar com ela porque não a entendia. Era compreensível. Eu, pelo contrário, tinha com um acordo com a menina:
…me ensine sua lingua e serei sua amiga.
E assim foi. Isabel, lembro até hoje, foi responsável por momentos inesquecíveis da minha infância. Quando todos viram que ela não era nenhum ser de outro planeta, toda molecada da rua começou a brincar com ela. Em poucos meses eu e minha família mudamos de cidade e nunca mais tive notícias da menina.
Meu fascínio por Libras
Tenho certeza que aquela garotinha de olhos expressivos e sorriso triste me deu muito mais do que momentos para se lembrar. Sempre quis ser intérprete de Lingua Brasileira dos Sinais (Libras) por achar que o direito de compreender e ser compreendido é de todos. Fiz Libras por dois anos e leio tudo o que cai nas minhas mãos sobre Cultura Surda.
Apaixonada por música e pela cultura surda, percebo que raras são as bandas que reconhecem a possibilidade de levar sua arte para quem não ouve, mas consegue sentir. É um desperdício bandas como U2, Pink Floyd que, no palco, tem um apelo visual forte não desenvolver nenhum tipo de forma criativa para atender a comunidade que, sabe sim o que é música e reconhece os grandes ícones inseridos nela.
Pois, diante disso, selecionei três momentos lindos de canções traduzidas em Lingua de Sinais. Aliás, fica o registro de que, há algum tempo atrás, rolava uma campanha para que os filmes brasileiros tivessem uma sessão legendada para que as pessoas surdas pudessem assistir as produções feitas em seu próprio país.
Pelo jeito, com o perdão do trocadilho, poucos deram ouvido. Eu tenho, com muito orgulho, uma camiseta desta campanha, desde 2007.
Embora a Lingua Brasileira de Sinais tenha sido, oficialmente reconhecida no país em 2002 durante o governo Fernando Henrique Cardoso, ainda há um longo caminho a trilhar. Leis que realmente valorizem a comunidade surda. Que obriguem que cada órgão público tenha pelo menos UM FUNCIONARIO que possa atender em Libras. Que exijam dos cinemas, sessões com acessibilidade para quem não ouve. Que tenha programas de TV com traduções em Libras. E quando falo programas de TV não incluo aquela pasmaceira que fazem no horário político gratuito que, só lembra que existem surdos no país em época de eleição e, mesmo assim, com traduções impossíveis de serem compreendidas devido à fonte pequena e a rapidez com que as informações são passadas.
(veja que porcaria de legenda*. Incompreensível)
Beatiful Boy
Mr. Holland ou Adorável Professor é um dos filmes mais lindos e óbvios que eu já vi. Conta a história de um professor de música que é pai pela primeira vez e, para sua surpresa, o filho, Cole, nasce surdo. O conflito entre a música na sua vida e o mundo silencioso do filho faz com que ele não aceite a situação, até ter a consciência de que poderia conciliar os dois lados da vida.
Uma dos melhores diálogos do filme é o momento em que Cole vê que seu pai está triste. O dia é 8 de dezembro de 1980. Sem dar muita importância ao questionamento do filho ele apenas diz que o filho não entenderia.
Cole (sinalizando em ASL – lingua dos sinais americana – e sendo traduzido pela mãe): Por que você assume que a morte de John Lennon significaria nada para mim? Acha que sou estúpido? Eu sei quem é John Lennon.
Mr. Holland (olhando para a esposa): Eu nunca disse que ele …
Cole: Eu não consigo ler seus lábios se você não olha para mim.
Mr. Holland (olhando para Cole): Eu nunca disse que você era estúpido
Cole: Você deve pensar dessa forma. Se você pensa que eu não sei quem são os Beatles ou – enfim – qualquer música. Você pensa que eu não me importo com o que você faz ou com o que você ama? Você é meu pai. EU SEI O QUE É MUSICA! Você poderia me ajudar a conhecer melhor, mas não. Você se importa mais em ensinar as outras pessoas do que eu.
O auge do filme , na minha opinião, é quando, por meio de ASL (a Língua de Sinais Americana), o professor interpreta Beutiful Boy, clássico de John Lennon. Unindo silêncio à música.
Problema de Expressão – Clã
Dia desses, descobri no blog da Fernandinha Takai, uma banda portuguesa chamada Clã. Uns dois cliques no Youtube, encontrei o clipe “problema de expressão”, com algumas frases em Língua de Sinais.
A principio todo o clipe era para ser traduzido na Língua de Sinais, mas a produção optou por usar apenas nos trechos onde a letra fala em dificuldades de comunicação.
Given to Fly

Já escrevi um post sobre esse momento magnífico do Pearl Jam, mas vale a pena escrever sobre isto de novo. Durante a canção Given to Fly, Eddie Vedder é acompanhado por uma intérprete de ASL para a pequena platéia surda localizada na sua frente. A turnê faz parte da turnê de 2000.
Lindo
Algumas considerações
* O vídeo indicado apenas ilustra um dos ínumeros casos de legendas inadequadas para o eleitor surdo. Não indica nenhum vínculo político ou preferência partidária.
Cabe informar que o termo surdo-mudo é usado, na maioria das vezes erroneamente. Na maioria das vezes, quem é surdo não é mudo. Apenas não fala por nunca ter escutado o som das palavras.
O termo “surdo” não é pejorativo. Muitos preferem esse termo do que ‘deficiente auditivo’. Ambos estão corretos.









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