Top 5 ritmos latinos que influenciaram a música gaúcha
Quando a Cler me convidou pra fazer esse artigo eu fiquei muito contente, porém ciente da responsabilidade que ela estava me passando. Falar sobre uma cultura tão linda e tão rica num blog que trata dos mais variados gostos musicais não é fácil, mas mais difícil ainda é representá-la, é carregar o pavilhão de tres colores na estampa que nós, gaúchos de nascimento ou de coração, muito honramos e respeitamos; o Rio Grande é a nossa pátria.
Muita gente pensa que a música gaúcha se resume ao difundido Brasil afora “gaitinha pra lá e gaitinha pra cá”. A mídia carrega muito mais o famoso vaneirão pro sudeste e centro-oeste, até porque vende com muito mais facilidade. Não cabe aqui tentar descobrir os porquês disso, pelo contrário, eu abro cancha para o lado folclórico e musical do Rio Grande, e quero mostrar neste post cinco ritmos latinos que influenciaram a música gaúcha e que provavelmente você nunca ouviu falar, se porventura não teve nenhum contato com o estado que é o garrão da pátria.
Porque não dá pra separar a música nativista daqui, do Uruguai e da Argentina. Não mesmo. Se formos investigar a fundo, ainda, não daria nem pra separar a América em nações quando tratamos destes ritmos, porém eles se concentram nessa tríplice fronteira e ela nos basta para explicar a influência fronteiriça, tanto pelos costumes, indumentária, culinária; a música não poderia ser diferença.
Também não dá pra separar o nome Atahualpa Yupanqui, o maior e mais conhecido folclorista argentino, dos ritmos que falo a seguir. Se eu tivesse a honra de entrevistá-lo para escrever este texto, perguntando qual ritmo ele escolheria para começar o Top 5, Yupanqui muito provavelmente me olharia com aquela estampa serena de um índio guasca e me dedilharia uma…
1. Milonga
César Oliveira e Rogério Melo – Milonga Maragata
A Milonga é uma derivação da Habanera, assim com o Tango. E aí existe uma confusão grande que os menos assíduos destes espetáculos musicais sempre cometem. A Milonga, além de ser um ritmo com características próprias, pode também dar nome às apresentações de tango. Então existe a milonga, o espetáculo onde se dança músicas tradicionais argentinas (tangos, chacareras, valsa argentina — variação da valsa vienense — e salsa) e a Milonga, um ritmo musical da região da Andaluzia, da Espanha, difundida em Montevidéu, Buenos Aires e Rio Grande do Sul.
2. Chamamé
Luiz Marenco – Batendo água
Você já deve ter ouvido a música Mercedita. Talvez Km 11. Pois é, são os dois Chamamés mais conhecidos e que vão além fronteiras, até porque o Chamamé, ritmo argentino que tem como o seu berço a província de Corrientes, nordeste do país hermano, é também muito difundido no Mato Grosso do Sul (por causa da fronteira com o Paraguai, onde também é apreciado), tendo também uma ligação forte com a música sertaneja do interior paulista.
O Chamamé tem duas peculiaridades: na Argentina, só num Chamamé é “permitido” o sapucay, uma espécie de grito de guerra indígeno que significa “o grito da alma” e que no vídeo acima você saberá identificar. Também é neste tipo de música que se usam as gaitas de botão (conhecidas também como gaitas-ponto ou simplesmente botoneiras), que diferentemente dos acordões de teclas (gaita apianada, a mais comum), proporcionam uma sonoridade muito mais criolla — ora, mais gaúcha, em todas as definições desta palavra.
Chacarera
César Oliveira e Rogério Melo – Chakay Manta
Só não citei a chacarera no início do Top 5 pra não parecer tendencioso. Mas é claramente tendenciosa a minha opção em colocar um vídeo feito por mim mesmo com uma câmera digital amadora (por isso a qualidade não tão apurada), onde César Oliveira e Rogério Melo cantam Chakay Manta e oferecem a música a este que vos escreve num show deles aqui nas redondezas.
A Chacarera é, na minha opinião, o mais belo ritmo latino que chegou até o Rio Grande do Sul. Ao contrário do Chamamé e da Milonga, numa Chacarera não é usada a gaita, o que pode parecer meio contraditório para a música gaúcha. Eu amo a gaita, mas os meus olhos brilham ainda mais com as batidas do bombo legüero. Aliás, é um instrumento que considero tão majestoso que nem mesmo a reforma ortográfica me faz abdicar o trema imponente que ele carrega. É um charme a mais. Quando um legüero resonga, parece que tá batendo dentro do peito da gente. Incrível.
Apesar de ser um estilo tipicamente argentino, há registros de ter sido executado também no sul da Bolívia, especificamente por trabalhadores rurais nos idos do século 19, mas também é possível achá-la em La Paz e Cochabamba ainda hoje. Uma outra grande precursora do ritmo é Mercedes Sosa, que dispensa comentários e apresentações.
Tanto na dança quanto nos instrumentos, a Chacarera assemelha-se muito com a…
Zamba
Los Chalchaleros e Mercedes Sosa – Zamba por vos
O grupo folclórico argentino Los Chalchaleros não é autor de Zamba por Vos, mas é de Chakay Manta, a do vídeo anterior. Zamba por vos é de um uruguaio chamado Alfredo Zitarrosa e aqui temos mais uma pegadinha de tríplice fronteira: um uruguaio escreveu uma música em um ritmo tipicamente argentino, nascido possivelmente no Peru e que influencia, também, a música brasileira.
É importante não confundir a Zamba com o Samba, brasileiro, pois apesar de trocar o S pelo Z, a fonética é idêntica, haja vista o sotaque castelhano.
PS: o ‘possivelmente’ acima é por conta da indefinição do local e data exatos da existência do ritmo. Musicólogos latinos concordam que a Zamba é oriunda da Zamacueca, um estilo tipicamente peruano, nascido em Lima.
Polca
César Oliveira e Rogério Melo – Paleteada
Aí você me pergunta: a Polca não é européia? Claro que é. Mas a América Latina não deixou passar em branco a vinda deste ritmo da Europa central pelos imigrantes no século XIX e deu uma caprichada no tempero. A Argentina e o Paraguai fizeram com que a Polca tocada por aqui fosse um pouco mais acelerada no compasso (a batida agora era 3/4 e não mais os 2/4 europeus), e usaram-na tipicamente para cantar a vida do gaudério, o homem campeiro, principalmente o gaúcho antigo que não esquentava lugar — nômade que era, e tocava gado pelos pampas. Martin Fierro que o diga.
E antes que a Cler nunca mais me convide pra escrever nada por aqui pelos imensos floreios e a extensão deste artigo, agradeço o espaço e o convite para divulgar essa cultura linda e rica, a tradição gaúcha. Gracias e, como dizemos por aqui, um forte quebra-costelas!
——————————
Por que o Blog do Becher?
Conheci o Blog do Becher já faz algum tempo. Seguramente, mais de um ano e meio. Antes mesmo de adicionar o Becher no Twitter e muito antes de se tornar meu amigo e o cara que manda bem na hospedagem deste espaço para que você continue lendo o Hit na Rede. Já nos primeiros contatos era impressionante o quanto esse catarinense tinha a alma e o coração fincados no RS. Como a proposta do Top 5 Convidados é trazer pessoas das mais diversas vertentes musicais, lógico que o Becher não poderia faltar. E quer saber? Mandou muito bem, com uma senhora aula de músicas que eu, morando no extremo Sul do país, desconhecia. Acertei de novo!











Pingback: Voulez-vous couché avec moi? Ahhhh... Cinco sexy videos por Rodrigo Dias | Hit Na Rede