Cobain pelos editores da Rolling Stone: Fragmentos do Fantástico Mundo de Kurt
Kurt Cobain, desde que eu o conheci em 1992, sempre esteve entre meus astros do rock favoritos. Quando morreu, soube pela TV. Não foi algo triste, mas foi chocante. Nunca o julguei por isso e, pode parecer algo mórbido e bizarro mas o admiro por ter usado o seu livre arbítrio para se libertar.
Publicado originalmente em 1997, Cobain pelos editores da Rolling Stone chegou ao Brasil no final de 2009 e pode ser considerado mais uma peça para ajudar fãs roots como eu a montar o quebra-cabeça Kurt Cobain. Uma compilação de todas as entrevistas dada pelo líder do Nirvana à publicação e resenhas de álbuns.
O livro surpreende. A diagramação é, assim como Cobain, envolvente, uma explosão caótica de rara beleza. As cores fortes, com ênfase no preto e vermelho, aliam-se a uma fonte que traduz os esqueletos que estavam dentro desse armário. Na capa, a famosa foto de Mark Seliger é a única informação que encontramos. Não há necessidade de mais nada: titulo, autor, editora. Nada. Apenas a foto. É como se o Kurt da foto estivesse propondo um desafio para o leitor. É como se dissesse: “me decifre se for capaz uma vez que, na Rolling Stone, ninguém conseguiu”. Nas entrevistas, Kurt mentia descaradamente sobre suas origens, sua família, seu passado criando desta forma espaços, recriando personagens, construindo seu próprio mito. Mentiras que foram desmascaradas por seu biógrafo Charles R. Cross no livro Mais pesado que o céu como a que afirma ter morado embaixo da ponte North Aberdeen, no inverno de 1985. Segundo as pesquisas de Cross, o fato não passou de um adereço no fantástico mundo de Kurt Cobain.
Kurt pode não ter conhecido Cazuza, mas, assim como ele, sabia que mentiras sinceras interessam. Fazer um livro contando a história do líder do Nirvana por meio de suas declarações e pela visão da mídia faz parte de um jogo que Kurt começou.

Reconhecendo os erros

Photo by Kirk Weddle / Sipa Press P.
Por mais que a Rolling Stone tenha voltado suas atenções para o trabalho e a vida de Cobain, o livro, chamado pelos próprios editores de “tributo final”, soa como um pedido de desculpas. A Rolling Stone soube, tardiamente, o que na época, milhões de adolescentes já sabiam desde o primeiro contato com Cobain: Nirvana era e seria por décadas, uma das maiores bandas de todos os tempos.
Ira Robbins, critico de música, é a prova viva disso. O livro conta com a resenha de um disco que, em agosto de 1991 era uma incógnita até para os “especialistas”:
“Liderada pelo guitarrista e vocalista Kurt Cobain, o Nirvana é a mais recente banda underground a testar a tolerância geral à música alternativa. (…) Nevermind encontra o Nirvana em plena encruzilhada – guerreiros mambembes da Terra das Garagens querendo conquistar uma Terra de Gigantes”
Para o livro, Robbins escreveu uma justificativa quase tão longa quanto seu texto, quase 20 anos depois. Os três parágrafos desperta o constrangimento em quem o escreveu e, mais ainda, em que lê:
“A análise que escrevi previa o seu fracasso comercial (…). A história, é claro, foi outra”
Uma pequena tur por Cobain pelos editores da Rolling Stones – Por Cler Olivera
Traduzindo a agonia…

Além de grandes entrevistas, o livro traz dezenas de fotos, muitas célebres e outras menos conhecidas mas todas igualmente interessantes que acompanharam a história de amor e indiferença entre a Kurt Cobain e a Revista Rolling Stone. Completam o livro uma compilação preciosa contendo todos ao álbuns e singles (americanos) que compõem a discografia do Nirvana, uma lista seletiva de turnês, ano a ano. Alem da cronologia da vida de Cobain.

Photo M. Linssen
Como fã, digo que é um livro essencial na galeria de qualquer admirador do líder do Nirvana.
Como jornalista, a compilação esconde uma grande e lamentável verdade: o jornalista, depois que liga seu gravador, é um mero fantoche da sua fonte, caso ele se concentre apenas em capturar as informações DITAS por ela. Muitas vezes, o grande momento da entrevista está muito mais no que não está sendo dito, mas sim nos gestos, no olhar, no simples levantar de sobrancelhas. Infelizmente, muitas das matérias reproduziram as mentiras que Kurt usava como uma cortina de fumaça para esconder sua agonia sem fim.
A clássica foto de Tom Reese
Anthony DeCurtis, redator e editor da Rolling Stone abre o livro com o que eu considero o melhor texto já escrito sobre Cobain. Emociante e realista, DeCurtis consegue traduzir em palavras parte do que nem Kurt conseguiu expressar. Não resisti e fiz um áudio com um pequeno trecho. Para ouvir, clique na imagem:
Em outro trecho, DeCurtis se debruça sobre as razões do suicídio e, fugindo de qualquer clichê, abrange sua reflexão além do astro do rock e extende à agonia daqueles que se identificam com o seu sofrimento:
“.. o suicídio envia sua propria mensagem impiedosa. Na verdade é o último grito de desespero, mais atormentado que qualquer berro que Cobain tenha soltado nas canções do Nirvana. Na verdade ele estava em agonia e não viu nenhuma outra forma de dar fim a isso. Mas o suicídio também é um ato de cólera, uma pesada acusãoção à vida.”
“Se a incapacidade de viver é ‘sensivel’, a capacidade de viver parece estúpida. ‘Vocês são tão bons em superar as coisas’, diz a mensagem final. ‘ Superem esta’”.
(Anthony DeCurtis)
Parte da renda da venda dos livros é destinada ao Kurt Cobain Scholarship Fund, localizada em NY e Cease Fire Inc, ambas voltadas à educação. Para tornar a leitura ainda mais interessante, aconselho a ler esse livro e logo, em seguida ler Mais pesado que o céu. Muitas de suas perguntas serão respondidas, embora algumas, como a sua própria morte, ainda fique sem resposta. Simplesmente porque não há.
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Falando nisso…
Aproveitando, embora não tenha a ver diretamente com assunto: há tempos que quero indicar aqui no blog o ótimo texto da Thais Lombardi sobre suicídio. Ela relaciona, de maneira sensível, o suícidio da atriz Leila Lopes e a falta de respeito desse caso e outros envolvendo suicidas. Diz ela em seu post:
Primeiro, meu amigo cara-pálida, suicídio não é covardia. Ao meu ver, precisa-se de muita coragem pra abrir mão da vida, ainda que você não veja mais nada de significativo nela. Você vai me desculpar mas, a não ser que você seja um sobrevivente de guerra, de câncer ou lute com uma depressão profunda, não vejo a menor razão pra você se gabar da sua ‘coragem’ de viver. Porque ela não existe. Continue lendo.
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