We are the world 25 for Haiti: Onde a solidariedade e a vergonha alheia se encontram

Que fique bem claro uma coisa: acho válida toda e qualquer iniciativa que venha beneficiar o Haiti ou qualquer outro lugar que tenha uma história trágica e que precise de ajuda para se recompor.
Dito isso. Sigamos:
Quando Quincy Jones veio com a história de regravar We are the world para ajudar o Haiti, o medo do que poderia vir foi imediato, principalmente depois de ter lido a sua declaração na qual dizia que o fato de o terremoto no Haiti coincidir com os 25 anos da primeira versão de We are the world era algo divino. Como filha adotada pelos anos 80, a curiosidade de ver mais esse produto Made for Haiti na rua era grande porque se sabia que, da gravação original, erroneamente, ninguém seria chamado. Seria dado preferência para alguns artista veteranos e “ícones da nova geração”. Cogitou-se Lady Gaga, Madonna, Bono, Jonas Brothers e tudo o que a imaginação dos tablóides foi capaz de criar.
Pois finalmente o mistério da regravação foi revelado no dia 12 de fevereiro durante as transmissões dos Jogos Olímpicos de Inverno, pela NBC. De cara, um web hit. Um blá blá blá introduz o maior jogral do mundo que, por mais que queira, não consegue passar naturalidade, com raros momentos de genialidade e permeado por vergonha alheia ao longo dos mais de oito minutos de vídeo.
O que me parece é que Quincy Jones e Lionel Ritche estavam mais preocupados em “comemorar” os 25 anos de um dos eventos musicais mais marcantes da História e, “de quebra” ajudar o Haiti. Um encontro de astros e subcelebridades. Uma espécie de American Idol de jovens estrelas que tentam – sem êxito – superar a gravação original com “originalidade”. O remake só serviu pra que agradecessemos a Deus por sermos contemporâneos da idéia original. E claro, levantar o ego dos participantes e uns trocos para o Haiti. Unindo o útil ao dispensável.
Vídeo original
E o que temos agora?
Impossível não comparar as duas versões. Embora em contextos diferentes, vale a pena refletir: havia a necessidade de recriar esse clássico? Na minha opinião, não. Não pelo menos da maneira como foi feito. De todos que participaram do original em 1985, que eu saiba, apenas Michael Jackson e Ray Charles morreram. Aliás, Jamie Foxxx, o intérprete de Ray no cinema, faz uma bela e discreta homenagem ao cantor. Por que não chamar esse povo, ou pelo menos parte dele? Imagine que emocionante seria rever Tina Turner, Cyndi Lauper, Willie Nelson, Stevie Wonder no mesmo espaço novamente!
O que falta nessa n0va versão é história. We are the world é muito mais que uma música. Colocando Miley Cyrus, Justin Bieber, Fergie e Enrique Iglesias na mesma canção, o que era emocionante passa a ser algo comum. Um festival de vozes sem propósito. O que faltou foi um elo que ligasse a história de 1985 a esse novo e trágico contexto. Essa função ficou a cargo de Michael Jackson que, não por sua culpa, falhou vergonhosamente.

O vídeo original abre os trabalhos com um dos maiores cantores dos anos 80 e co-autor da canção, Lionel Ritche. Uma reverência à boa musica. Na nova versão Justin Bieber, o dispensável canadense de 15 anos, descoberto no Youtube, é o maquinista da missão que tem tudo para bater numa árvore já nos primeiros acordes. USA for Africa 1 x 0 We are the world 25 for Haiti.

Tina Turner ja nasceu diva. Uma das melhores e mais brilhantes. Voz marcante. Tom certeiro. Mary J. Blige, por outro lado, faz parte da geração de cantoras que já no primeiro acorde levanta o tom para mostrar o alcance vocal e no meio se esguela para chamar o que faz de soul music. USA for Africa 2 x 0 We are the world 25 for Haiti.

Ressucitar Michael Jackson para essa segunda versão foi uma jogada de mestre. A participação do além, assim como no vídeo original, emociona. Agora, Michael faz tudo sozinho. É o rei do pop e não precisa de vassalos. Colocar Janete Jackson apenas para mexer a boca ao lado do irmão, como se ela fosse o fantasma da vez, foi um ato, no mínimo, sem sentido. Friso o fato de que ela só mexeu a boca! Nada mais. E estragou a belíssima fotografia desse frame. USA for Africa 3 x 0 We are the world 25 for Haiti

Barbra Streisand e Diana Ross. Duas cantoras glamurosas que cheiram a Broadway. Não há como saber quem foi melhor nesse momento porque ambas são talentosas e acima de qualquer avaliação. O primeiro ponto a favor do time visitante, embora o time da casa mereça um ponto aqui também. Empate técnico. USA for Africa 4 x 1 We are the world 25 for Haiti.

Não sei quem foi a criatura que disse que Hannah Montana cantava. E não sei qual foi a criatura que teve a infeliz idéia de juntar a filha de Billy Ray Cirus nesse “festival”. Covardia dar a ela algo que já foi cantado por Dionne Warwick. Quisesse impressionar ou pelo menos ser marqueteiramente correto, seria melhor ter posto a sobrinha de Dionne, Whitney Houston, não é mesmo? USA for Africa 5 x 1 We are the world 25 for Haiti

Willie Nelson é lenda. Enrique Iglesias é apenas o filho de Julio Iglesias. USA for Africa 6 x 1 We are the world 25 for Haiti.

“Well, well, well…” A parte lendária e mais que espontânea cantada pela Lady Gaga dos anos 80, Cindy Lauper foi sumariamente substituída por ninguém menos que Celine Dion. Numa direção quase estafante para se chegar ao resultado. Eu confesso que fiquei curiosa para saber quem faria a parte da Cindy. Foi um pouco frustrante. USA for Africa 7 x 1 We are the world 25 for Haiti
E o jogo continua:
- O remake traz o cantor haitiano Wyclef Jean. Embora seu vibrato destoe um pouco da história, trazer um haitiano para entoar uma canção em prol do seu país é no mínimo coerente. USA for Africa 7 x 2 We are the world 25 for Haiti.
- A regravação traz Carlos Santana em um pequeno solo de guitarra. Idéia de gênio colocar um artista instrumental reconhecido para participar da canção. Em geral, todos são esquecidos. USA for Africa 7 x 3 We are the world 25 for Haiti.
- O vídeo não traz imagens tristes. Mostra a alegria e a fé que qualquer criança tem em qualquer parte do mundo. Não é um vídeo deprimente como os mostrados no Hope for the Haiti Now. Porém há uma estranha sensação em ver crianças dançando sobre os escombros. Gancho para diversas piadas de humor negro. USA for Africa 7 x 4 We are the world 25 for Haiti.
- Um rap no meio do video. A idéia mais modernamente bizarra que qualquer produtor poderia ter está lá. Lil Wayne introduz a “genialidade” cantando com efeitos – dispensáveis – de voz. Um momento from hell que, sinceramente, acaba com o vídeo antes mesmo do fim e faz com que percamos qualquer sinal de consideração que poderíamos ter a partir do 5′ 51″. USA for Africa 8 x 4 We are the world 25 for Haiti.
Ainda sobre We are the world 25 for Haiti
Entre cantores solos e sideshows, a lista de artistas envolvidos no projeto conta com 88 nomes.
- QUINCY JONES – Produtor Executivo
- LIONEL RICHIE – Produtor Executivo
- WYCLEF JEAN – Produtor Executivo
- RICKEY MINOR – Produtor
- RedOne – Produtor
- CARLOS SANTANA
- JENNIFER HUDSON
- JAMIE FOXX
- SUGARLAND
- ADAM LEVINE
- JASON MRAZ
- EARTH WIND & FIRE
- NATALIE COLE
- THE JONAS BROTHERS
- T PAIN
- BRIAN WILSON
- JUSTIN BIEBER
- NICOLE SCHERZINGER
- INDIA.ARIE
- JULIANNE HOUGH
- MARY MARY
- MELANIE FIONA
- BEBE WINANS
- MYA
- TYRESE GIBSON
- ANTHONY HAMILTON
- RAPHAEL SAADIQ
- GLADYS KNIGHT
- KERI HILSON
- JOEL & BENJI MADDEN
- HEART
- BRANDY
- P!NK
- MUSIQ SOULCHILD
- MILEY CYRUS
- AKON
- JORDIN SPARKS
- CELINE DION
- ROB THOMAS
- KATHARINE McPHEE
- JEFF BRIDGES
- RANDY JACKSON
- PATTI AUSTIN
- KID CUDI
- USHER
- WILL.I.AM
- KANYE WEST
- LL COOL J
- ISSAC SLADE (aka The Fray)
- SNOOP DOGG
- NICOLE RICHIE
- TREY SONGZ
- ETHAN BORTNICK
- TARYLL JACKSON
- TAJ JACKSON
- TJ JACKSON
- VINCE VAUGHN
- DRAKE
- FREDA PAYNE
- FAITH EVANS
- ROBIN THICKE
- RASHIDA JONES
- BARBRA STREISAND
- JIMMY JEAN LOUIS
- ENRIQUE IGLESIAS
- ZAC BROWN
- LIL WAYNE
- TONY BENNETT
- JOSH GROBAN
- SEAN GARRETT
- HARRY CONNICK, JR.
- AL JARDINE
- BONE THUGS AND HARMONY (BIZZY BONES)
- AR RAHMEN
- FERGIE
- MARY J. BLIGE
- ORIANTHI
- MANN
- NIPSEY HUSSLE
- IYAZ
- KEITH HARRIS
- NIKKA COSTA
- TONI BRAXTON
- FARNSWORTH BENTLEY
- PLAIN PAT
- IL TRIO
- As gravações ocorreram no dia 1º de fevereiro no mesmo estúdio da gravação original.
- A VISA foi a empresa que tornou a produção financeiramente viável.
[Atualização]
Jay-Z sobre o remake de We are the world:
Sei que muitas pessoas vão entender isso de maneira de errada: eu amo ‘We are the world’, entendo a razão do remake e acho ótimo. Mas esta música de Michael Jackson é como ‘Thriller’ para mim, não pode ser tocada. Não deveriam ter feito. Acho que é hora de fazermos uma nova música. Tentei fazer isso com ‘Stranted’, não quis fazer uma ‘We are the world’, mas uma música que também mostrasse como me sentia” (Jay-Z)








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