Uma pessoa pode ser avaliada, valorizada ou simplesmente amada apenas por sua aparência?

Mais do que um corpo: Ashley Fink, Sinead O’ Connor e Adele
“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…”
(Caetano Veloso)
Por mais politicamente correto que o mundo aparenta ser por conta da ética e, em alguns casos por força da lei, é sabido, desde os tempos de Adão e Eva, que as pessoas – com raríssimas exceções, são julgadas pela sua aparência. E, nessa palavra, pode considerar pessoas consideradas feias, gordas, com problemas físicos, etnicamente diferentes e fora dos padrões de beleza impostos pela mídia, pela moda e pelo subconsciente da sociedade.
Quando se é criança e adolescente e se está na escola, a forma repetitivamente cruel com que as pessoas são lembradas de que não fazem parte da maioria é chamada de bullying. Mas… e quando um dos mais respeitados veículos de comunicação, em sua manchete, trata de ridicularizar uma cantora por conta de sua aparência, é o quê? Pra mim, o reflexo de uma sociedade que discrimina, ridiculariza, humilha e se diverte com o que classificam ser mais importante que o talento: a maldita aparência.
Estava lá… na Folha de São Paulo online:

Sinead O’ Connor, nem quando magra, era modelo de beleza embora fosse, naturalmente, uma mulher muito bonita. Tanto que tinha seus cabelos raspados e por muitos anos se dedicou à religião provando ao mundo que não era uma artista apegada a sua aparência.
Por muitos anos não se ouviu falar dela. E agora ela “reaparece gorducha e cabeluda”. Não faço idéia quem foi o jornalista que escreveu essa matéria mas tenho certeza que, com o mínimo de esforço, ele teria encontrado palavras mais adequadas para se referir à cantora. Nem mesmo o Ego que bate recordes interplanetários de manchetes sem noção foi capaz de cometer tamanha grosseria ao falar da volta da cantora. O Mirror.Uk – famoso tablóide – limitou seu comentário ao fato de ela parecer mais velha sobretudo de cabelos longos.
A Folha se limitou a manchetá-la apenas pela sua forma física e não disse sequer como foi o show de retorno de O’Connor. Ela continua cantando como antes? O que tem em seu repertório atual? Alguma declaração polêmica ou relevante? Não sei… infelizmente não sei pelo simples fato de que o respeitado veículo de comunicação sobrepôs a palavra “gorducha” sobre toda e qualquer informação.
Eu já fiz essa pergunta antes e volto a fazer novamente: uma pessoa pode apenas ser avaliada, valorizada ou simplesmente amada por sua aparência? Em um mundo perfeito, poder, não poderia e nem deveria…mas infelizmente, é assim que a banda toca.
“Gordas namoram?”
Antes de eu realmente chegar onde eu quero, mais um exemplo do preconceito que dita quem deve ou não ser feliz. No Papel Pop a notícia de que a linda e talentosa Adele estava sendo extorquida pelo seu ex-namorado revelou, nos comentários, mais uma faceta de um povo que adora no Twitter ser politicamente correto e esconde seu preconceito atras do anonimato.

Pois…
Esta semana retornei à Universidade na qual me formei para falar com duas pessoas. Depois de ter me encontrado com as duas, aproveitei o tempo que ainda tinha e fui até uma cafeteria linda, dentro do campus, que fica próximo a uma paisagem encantadora. Lá três universitárias conversavam descontraidamente em uma mesa ao lado da minha. Não faço idéia de quem estavam falando mas isso é o que menos importa. Aqui, parte do diálogo:
- … Mas pelo menos não sou gorda…
- Ela é gorda, mas é muito inteligente…
- Que adianta, se é gorda? Ninguém escolhe alguém por ser inteligente, mas por ser bonita ou feia e ela é feia porque é gorda.
Não tinha como ouvir aquele fiapo de conversa fiada sem me sentir um lixo. Ironicamente eu estava dentro de uma universidade, lugar onde passei sete longos anos da minha vida buscando conhecimento para ter um diploma de jornalista mas.. wait! Eu sou gorda! Onde está o lixo para que eu coloque o meu diploma e, de preferência um bem grande para caber todas as expectativas que coloquei nele?
Naquele momento tudo começou a fazer sentido e – sem ironia, volto a repetir – me senti um lixo. Uma completa imbecil. E lembrei de todos os meninos / homens pelos quais me apaixonei perdidamente pela sua inteligência, capacidade de me fazer rir, de fazer com que eu me sentisse segura e por uma questão estética alguns nem chegaram a saber o quão eu os quis por perto.
”‘Minha mulher não engordaria porque é uma pessoa inteligente.”
(Brito Jr em entrevista ao CQC. Veja o vídeo no blog da Renata Vaz)
Nada parece ser mais importante no mundo atual do que ser magra. Sabemos que tem alguma coisa errada com tudo isso, mas sempre que paramos para pensar, quem se sente culpado são justamente as pessoas que sofrem o preconceito.
“Gordos nojentos”

No ano passado a revista Marie Claire se viu em uma saia justa colocada pela jornalista free lancer Maura Kelly que, sem meias palavras, criticava os protogonistas da série Mike & Molly. Nunca assisti porque já estava assistindo a muitas séries e essa sempre foi colocada em segundo plano. Disse a sincera jornalista:
“Sim, me sinto enjoada de ter que assistir um casal gordo se beijando, acharia nojento ter de assisto-los fazendo qualquer coisa”. (Leia mais sobre essa bagunça toda aqui)
Sincera porque ela externou um sentimento que estava dentro dela que eu, mesmo que não fosse gorda, jamais concordaria por achar que TODAS AS PESSOAS têm o direito de serem felizes. Não preciso de uma lei e nem consultar o bom senso para chegar a essa conclusão.
“Ellen Fante”

Dona de curvas invejáveis, a modelo e atriz Ellen Roche recebeu um apelido no mínimo curioso: Ellen Fante. Tudo porque apresentou no quadro “Dança dos Famosos” contornos mais acentuados, o que não justifica o nickname. Veja com seus próprios olhos:
Glee: onde os fisicamente opostos se atraem

Na segunda temporada de Glee, Puck (Mark Salling), personagem bonitão e bad boy, é apaixonado por uma menina que é obesa em função da tireóide, Lauren (Ashley Fink). Por ela ele faz as coisas mais improvaveis e sem medo do que os outros vão pensar inclusive uma declaração de amor a ela e a seus quilos a mais interpretando Fat Bottomed Girl, clássico do Queen.
E pra terceira temporada outro romance engatando a fofíssima Mercedes com um galãzinho está sendo preparado. Não vou dar spoiler. Quem quiser saber que clique no Blog da Mari.
Há nas entrelinhas do mundo em que vivemos as seguintes condições:
Você pode cantar bem, mas é gorda.
Pode ser uma das melhores atrizes do mundo, mas é gorda.
Pode ser rica, mas é gorda.
Inteligente… gorda.
Simpática? Mas é gorda.
E por mais que as pessoas dizem que você é legal, você sempre será gorda e isso basta. Será?
Pode parecer bobagem mas realmente me incomoda ser obrigada a conviver em mundo – na falta de outro melhor – no qual as pessoas são valorizadas pela sua aparência e, na maioria dos casos, apenas por ela. É possivel mudar isso? Acredito que isso jamais irá mudar. Embora haja mais espaço para que pessoas diferentes sejam toleradas, infelizmente, elas nunca serão de fato e verdadeiramente aceitas. E isso é uma pena…
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