[Review: Stranger in This Town - Richie Sambora 1991] Estranho nesta cidade? Não mais!
Por Caroline Werner

Todo fã de Bon Jovi sabe que em breve teremos o privilégio de ouvir mais um disco solo de Richie Sambora, guitarrista e alma da banda. Aliás, um dos melhores do rock. Diferentemente do seu trabalho coletivo, mas não menos profundo ou importante, a voz inconfundível mostra sua força individual desde os anos 90. Com previsão de lançamento para 18 de setembro, os fãs acompanham a evolução do terceiro álbum solo, Aftermath of the Lowdown, com informações e fotos postadas diretamente pelo cantor por meio do seu twitter pessoal, dizendo que irá surpreender com o melhor dos seus trabalhos solos. Tá bom ou quer mais? Em se tratando de Sambora, podemos esperar sempre mais!
Esse álbum é precedidos pelo sensível Undiscovered Soul (1998) e pelo forte Stranger In This Town (1991). E é sobre ele o assunto de hoje:
“A esperança está em algum lugar a frente brilhando claramente
Mas o passado está sempre seguindo de perto” (One Light Burning)

Stranger In This Town, o primeiro álbum solo, mostra um Richie jovem, de trinta e poucos anos, amadurecendo com o grande sucesso da Bon Jovi – que após a exaustiva turnê New Jersey estava praticamente acabada. No documentário da banda, When We Were Beautiful (2009) todos os integrantes assumem que a banda tinha acabado, sem um adeus oficial. Desentendimentos fizeram com que cada um tomasse o seu rumo, sem planos, sem futuro. Mas isso é outra história. Foi nesse momento de pausa da banda, pós New Jersey (o álbum) e pré Keep The Faith que “Mr. Sambo” mostrou a que veio e que, independentemente da banda, tinha muito talento.
Com letras curtas e diretas e solos virtuosos de guitarra, Richie estreia seu primeiro álbum solo com o apoio dos colegas de banda David Bryan, nos teclados e Tico Tores na bateria, além de uma participação especial do amigo Eric Clapton, no solo de “Mr. Bluesman”.
Stranger In This Town não teve grande sucesso comercial, chegou ao 36º lugar nas paradas americanas e 20º das britânicas, mas fez a diferença no meio musical da época reconhecendo Richie Sambora como artista e não só mais um membro de banda.
O blues, aliado ao rock, é o principal ingrediente deste disco. Canções ora melodiosas e românticas, ora introspectivas, tristes e pesadas, retratam um pouco do homem do blues, seus sentimentos, sua reação ao momento que passava com a banda. “Rest in Peace” e “Church of Desire” misteriosamente se completam. Parece que a primeira é a introdução da segunda, com ecos e solos que parecem sair de uma igreja. Aqui o amor é tratado como uma religião.
Então diga uma prece e feche os olhos
Venha deitar-se e dormir
Depois que fizermos amor esta noite
Nosso amor descansará em paz (Rest in Peace)
Quando eu ajoelho no altar
Eu posso sentir o seu fogo
Na igreja do desejo (Church of Desire)
Todas as letras do disco foram escritas por Richie, algumas com co-autoria de outros compositores. Em vários momentos ele demonstra a incerteza pelo futuro dele como Bon Jovi e a força interior em recomeçar, pois apesar do grande sucesso como integrante de uma das bandas mais importantes do hard rock na época, como artista solo ele era um iniciante, um aprendiz, um estranho no ninho. Podemos ver isso nitidamente na faixa que dá nome ao álbum e uma das minhas preferidas.
Eu costumava ser um sonhador
Mas meus sonhos foram queimadosÀs vezes é difícil de encontrar um rosto amigo (…)
Eu ando sozinho na escuridão da cidade (…)
Eu sou apenas uma vítima da circunstância (…)
Eu sou apenas um estranho, um estranho nesta cidade
(Stranger In This Town)
Em “Ballad of Youth” e “One Light Burning” ironicamente, mas com aquele fio de esperança, Richie fala dessa transição que está vivendo e que não há tempo a perder. Também temos um Richie apaixonado e magoado pelo amor em “Rosie” (em parceria com Jon Bon Jovi na composição, originalmente destinada para o álbum New Jersey. Rosie era uma dançarina de clubes noturnos de New Jersey), em “River of Love” e em “Father Time”.
“Mr. Bluesman” é Sambora por ele mesmo, o músico, o guitarrista, o homem só daquele momento.
Ele era um homem
Um homem errante, sim, ele era
Guitarra na mão
Seu lar era a estrada e lá era onde ele estavaEu paguei algumas dívidas
Agora eu ganho minha vida como um músico
Eu toco blues
Eu acho que o blues deve ser exatamente o que sou
(Mr. Bluesman)
Para fechar, a balada mais power do disco, a que toca no fundo da alma falando sobre o sentido da vida, da morte, da forma mais poética possível. “The Answer”, para arrancar lágrimas!
Então eu vivo cada dia
Como se soubesse que fosse o último (The Answer)
Pode ser que isso tudo não faça sentido, mas ouso escrever aqui a minha visão de fã de Bon Jovi há bastante tempo e, mais recentemente, apreciadora do trabalho do Richie. Apesar de gostar mais do Undiscovered Soul, fui desafiada a escrever sobre o Stranger In This Town. Não mudei minha preferência, mas agora tenho uma visão completamente diferente sobre este primeiro voo solo do Sambora. Sabe quando preferimos algo, acabamos deixando o preterido de lado sem ao menos conhecê-lo direito. Assim como o Richie em 1991, eu era a “estranha nesta cidade” em 2012. Ambos, não somos mais.




