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Invertendo os papéis: quando o ídolo vira fã: a relação com a Cidadão Quem

Tavares e Cidadao Quem

Foto: Gustavo Vara

[Quando ele começa a falar sobre a Cidadão, em raros momentos o interrompi. Achava que se fizesse isso, poderia deixar algo escapar daquele quarto. O relato foi praticamente sem pausas]

Tavares -Eu era um cara que ouvia apenas heavy metal e, com 16 anos, fui em um show da Cidadão Quem em Rio Grande. [Atônito] Pensei ‘que isso, cara… os caras são demais’. Depois daquele show, dormi 19 horas e quando acordei disse ‘eu quero ser o Duca Leindecker. Tudo o que eu vi ontem foi a coisa mais preciosa da minha vida!’. Lembro que fui numa locadora, aluguei os dois CDs, gravei numa fita e ficava o dia inteiro ouvindo.

Quando fui pro Planeta Atlântida em 99, viajei 12 horas de ônibus, passei o dia inteiro na fila e pra mim, quando o show começou eram os Beatles na minha frente. Eu nem acreditava no que estava vendo. Eu lembro de cantar tudo, com uma camiseta, alucinado e de repente… o Duca apontou pra mim!!

[Tavares chega a um êxtase que parece que vai explodir. Relembrando o que aconteceu, seus gestos, exagerados e adolescente, me levavam a estar naquele show, junto à grade.]

Meu ídolo, velho!!! No final show o Cau (Hafner, baterista da Cidadão Quem) atirou uma baqueta e quem pegou fui eu. Algo que tenho, guardo e gostaria de ser enterrado com ela. Escondi a baqueta em baixo da camiseta porque pensei que iriam me matar a pau pra ter aquela baqueta. [risos].

Quando cheguei, no estande que vendia a Revista Atlântida (publicação que naquele número trazia a banda na capa e um CD encartado) eu vi uma camiseta da banda que eu queria. A menina da rádio, que não sei quem é, mas Deus salve essa guria, quando eu disse que era de Curitiba, me pegou pela mão e me colocou na porta do camarim, mas eu não pude entrar. De repente, veio o Cau com um monte de camisetas, autógrafos, me abraçando… e em seguida o Alemão[Luciano Leindecker], o Duca…

- Cara, tu cantou todo o show… – disse o Duca.
*atônito*
- A gente vai dar uma sessão de autógrafos. Vem comigo…

“Me diz, como que um ídolo chega para um fã e diz ‘vem comigo’, assim. Não pode fazer isso. Pode matar uma pessoa do coração. Lá pelas tantas o Cau falou:

- Toma meu telefone.
Eu só pensei.. “como assim?”
- Quando tu for a Porto Alegre nos liga.

“Pensei… ‘tá tudo errado, isso… não pode ser’. Dois dias depois, o Cau me ligou:

- E ai, Tavares. Tu ainda está em Porto Alegre?
- Sim, sim.. [*atônito*]
- Pode levar um material nosso pra Curitiba?

Na minha cabeça, eu já era um divulgador da Cidadão.No meu mundo onde o Duca ia do estúdio até a casa dele de helicóptero e o Cau andava de Ferrari, eu era um cara que ele sabia meu nome… Achava que no escritório da banda, na Tasso Fragoso, haviam seguranças de metralhadora na frente [risos].

cidadao-quem

Luciano Leindecker, Duca Leindecker, Cau Hafner

Quando voltei para Porto Alegre em 99 eu passava todos os dias com o Cau. Ele me convidava e eu ia. Enquanto ele trabalhava eu ficava assistindo a vídeos antigos da banda. À tarde o Duca chegava e dizia ‘vamos fazer um som lá no fundo’ e eu tocava com ele. Todos me tratavam tri bem. Eu tocava com eles, os via saltar de paraquedas. Daí, de um dia pro outro o Cau morreu. Do nada. E o caralho… e o Cau morreu. E tudo mudou

[Nesse intante o tom de voz de Tavares é calmo... compenetrado. Deixou para traz toda excitação e falava comigo devagar, como se quisesse que eu absorvesse o verdadeiro significado de cada palavra que ele estava dizendo e que iria dizer].

“De repente, eu conheço o meu ídolo, o cara mais foda que eu conheci… porra… os caras me tratava tão bem.. com tanto respeito… lembro dos guris na piscina do meu prédio e tocando e…ai, cara… eu era tão fã que eles me tratavam com respeito enorme.

Cidadão Quem – A La recherche- 1994

Embora eu tenha 27 anos, quando eu tenho que falar com ele (Duca), me torno num menino de 15. Já toquei com todo mundo, mas quando eu chego perto do Duca… é o mestre. Eu meço as palavras antes de falar qualquer coisa. Mas ao mesmo tempo, o Duca é um cara muito simples. O problema é que ele é uma referência muito forte, a importância dele é comparada ao respeito de pai e mãe. Os caras me respeitam até hoje.. eu levava os caras tão a serio que eu acho que não incomodava.

Cler – O que te deu fazer todo um sacrifício para estar no primeiro show da Cidadão Quem após a morte do Cau?

Contexto: Cau Hafner morreu um dia antes do seu aniversário de 40 anos, 11 de julho de 1999, em um acidente com paraquedas. Oito dias depois, a banda subia ao palco em um compromisso pré-agendado, para aquele que seria o primeiro show sem o baterista. Muitos fãs fizeram um sacrificio enorme para estar lá naquele dia, entre eles, eu, Cler. Foi nesse dia que encontrei o Tavares pela primeira vez, na beira de uma estrada, com um amigo, solicitando carona para o show.

Tavares - “Imagina…eu tinha meus 17 anos. Meu ídolo que, surrealmente, me tratava muito bem, tinha morrido. Tu conhece o cara e ele, em menos de 150 dias de convivência, morre. Um cara mais velho te fala sobre a vida e como é ter uma banda e… daí o cara morre. Eu fui lá, na frente cantando do primeiro show sem o Cau,  pra dizer que os fãs estavam lá. E é uma camisa que eu visto até hoje.

Cler – Quando a Cidadão Quem fez um dos maiores shows da sua carreira de quase 19 anos, vi em uma comunidade do Orkut, um comentário, que questionava a presença do ‘cara do Fresno’ na platéia e que, talvez tudo o que tu quisesse naquele lugar era aparecer. Mídia.

Tavares - “Cler, eu vim de São Paulo especialmente para o show. Especialmente para estar lá no meio e poder, por meio disso dizer ‘cara, eu estou aqui, dez anos depois. Sempre vou estar’.

Enquanto todo mundo me via como ‘o cara da Fresno’, eu estava nem ai.  [extremamente irritado] Daí vem alguém e me diz…’cara, me parece que ele já era fã da banda’! Se eu fosse velho diria ‘me respeitem. Sou da época do finado Cau’.

ATENÇÃO: a matéria completa está fragmentada em diversas partes. Para lê-la na integra, clique nos subtítulos abaixo:

 

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Cler Oliveira

Cler Oliveira, jornalista, gaúcha, apaixonada por música. Curte pop rock internacional dos anos 80, 90 e tudo o que agrade os ouvidos depois dos anos 2000.

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