“O pessoal do rock está tão careta que não consegue mais se colocar no patamar de ídolo”

Foto: Luringa
Como tu te articulas na internet? Vejo que tu tens um perfil no Orkut, no MySpace, um Fotolog, Twitter… são tuas ferramentas de trabalho?
Eu coloco as músicas na internet para a galera ouvir e curtir, mas uso muito esses meios porque eu gosto. Dizem que quando o cara atinge um certo reconhecimento ele tem que largar mão disso. E abdicar de viver? Se eu gosto, azar. Foda-se! Daí vem alguém e me diz que eu me exponho demais. Dane-se. Eu sei que, embora tenha muitos que só me vejam como o “cara da Fresno,” tem muita gente que me leva à sério como artista e é meu fã de verdade. Além desse lance estético ou de aparições em programas de TV.
Mas vejo que o canal é utilizado como uma forma das meninas apenas dizerem que te amam… Isso te incomoda?
Não.. demonstrações de carinho não me incomodam. Mas confesso que às vezes gostaria que as pessoas conversassem mais. Discutissem, filosofassem se fosse o caso. Trocar idéias. Falta muito isso ainda…
[Uma pequena pausa. E eu o provoco na discussão sobre a expressão na internet]
“Muitos adolescentes não conseguem mais se expressar. Sequer formar uma frase coerente..A internet matou muito o português”
[Depois de uma pequena discussão sobre a internet e o feedback, Tavares confessa que gostaria que os adolescentes que o adicionam nessas redes sociais pudessem se dar conta de que a música é algo muito mais amplo do que ele oferece]
“Tento alertar a galera que música não é apenas o que nós ou duas três bandas fazem. Em primeiro lugar sou da opinião que, quando você nasce, deveria de vir com um chip contendo o Antology,dos Beatles, inserido no cérebro para chegar sabendo o que aconteceu antes.”
“…quando você nasce, deveria de vir com um chip contendo o Antology, dos Beatles, inserido no cérebro.”
Eu sei que é muito legal eu chegar lá, tocar, mas cara, tem um milhão de coisas legais no mundo. O Brasil está tão sem atitude em relação ao rock que um cara como eu vira um ídolo de imagem, esteriótipo de atitude. Acho que o pessoal do rock está tão careta que não consegue mais se colocar no patamar de ídolo. Não conseguem mais ter atitude de ídolo. O Chorão (Charlie Brown Jr.) faz isso muito bem. Mas agora vivemos em um tempo no qual o baixista de banda se torna no ‘cara’. E quando ando na rua, vejo um bando de Tavarinhos ou miniaturas do Lucas… por que? Falta atitude.
[Tavares dá uma pausa até retomar o assunto]
“Não tem meio termo: ou nos odeiam, porque acham que somos extraterrestres porque usamos calça assim, ou calça assado, ou dizem ‘os caras são muito foda e eu vou ser igual’.
“A imagem que hoje eu passo para o adolescente é algo muito grande, de copiar, de fazer tudo igual, de me dizer ‘bah, mestre, tu toca pra caralho’. Pô, eu não toco porra nenhuma!
“Quando eu tocava apenas em Porto Alegre, ninguém me dizia que eu tocava pra caralho, exceto o Duca (Leindecker, Cidadão Quem). Por isso, coloquei os pés no chão. Tinha uma galera que me dizia que eu tocava muito que era o Ralf, o Duca.. tinha meus amigos, meus colegas que tocavam comigo na Abril… Hoje muita gente tenta nos copiar porque tem pouquíssimas referências. Acho que falta mais Chorão, D2, sem entrar no mérito da questão musical, mas falo em questão de atitude. A Pitty foi uma das últimas que fez isso, só que a Pitty ainda é do final dos anos 90.
[Outra pausa]
é claro que dou graças a Deus que somos muito bons nisso, mas acho que falta mais gente.
Cler – Vejo sinceridade nisso.
Tavares – Acho que é por isso que a galera gosta tanto. Por mais que tenha sido fudido, eu sempre falei o que eu quis. Isso gera o respeito. Sei que não devo satisfação para ninguém. Não tenho que agradar blasé. Não tenho que agradar jornalista.
…….

Cler – Relacionamentos são dificéis? Por exemplo, saber até que ponto tu podes confiar nas pessoas… Quando falo em relacionamentos, falo de todos os níveis: amizade, amor, camaradagem…
Tavares – Há uma semana fui para o Rio de Janeiro porque tinha um dia livre e lá eu fiquei com meus amigos. De lá fui para Curitiba, de Curitiba voltei para o Rio e de lá vim para Porto Alegre direto. E eu prezo estar perto da galera, que são meus amigos de verdade.
Pausa longa.
Tenho bons amigos. E eu cultivo. Em São Paulo, meus grandes amigos são os rapazes da banda. Pessoas que eu confio, de verdade. Tenho outros também. Contados. Mais são poucos amigos por lá. Mas, mesmo assim, prezo muito por conhecer gente. Acho isso muito foda.
Uma das melhores coisas na música, quando dá certo, é a oportunidade de se conhecer muita coisa e depois sentir saudades, de tudo o que tu conheceu.
Quando eu faço uma amizade, eu vou a fundo, mesmo. Quando, no ano passado, fizemos uma gravação de Malhação no Ceará, fiz muitas amizades e, sempre que posso, vou lá ver eles. Eu prezo muito isso.
Cler – Dá pra andar na rua, aqui, em Porto Alegre?
Tavares – Ah, sim.. dá. Tranqüilo. Não é algo enlouquecedor.
Cler – Mas se tu quiser passar um dia no shopping…
Tavares – Se eu for no Calçadão ou no Iguatemi eu to fudido. Mas é engraçado. Cada vez que eu venho aqui [Porto Alegre], vejo que as coisas estão diferentes. Às vezes, faço algo mínimo na TV e o cara que guarda as malas na rodoviária olha pra mim e diz ‘ô Fresno!’. Todo mundo sabe quem eu sou. Mas não é uma fama do tipo ‘vou sair, vão me matar’. É tranqüilo.
Neste momento lembrei que, na recepção do hotel, na cidade Baixa, onde Tavares estava hospedado, um dos funcionários, muito timidamente chegou perto dele como se quisesse contar um segredo de Segurança Nacional.
- Tu é o cara do Fresno, né?
- Sim, sim…
- cara, minha filha te adora… sabe, hoje é o meu primeiro dia de trabalho aqui e, se tu puder…
- claro, claro…
- eu queria levar um autógrafo pra ela.
- Tranqüilo. Passo aqui daqui há pouquinho. Até que horas tu ficas por aqui?
- Até as 23h20min.
- Beleza. Passo aqui daqui há pouco, então…
Cler – Posso dizer, então, que a tua fama é administrável.
Tavares – Isso. Mas já aconteceram coisas absurdas. No centro de são Paulo já vi gente desmaiando. Mas daí depende do lugar, da ocasião. Por exemplo: se eu sair agora e der uma volta na Cidade Baixa, vai ter gente dizendo que viu um cara igual a mim por aqui. Ao mesmo tempo que, se for em dia de show, todo mundo já sabe que se me ver é eu..Acontece de tudo. Já aconteceu de eu estar esperando para atravessar uma rua e sair de dentro do carro uma menina chorando, desesperada. Tem aqueles que são hostis também. Tem de tudo.
cler – Ser reconhecido em todos os lugares…
Tavares – É… já aconteceu de fecharem um parque pra gente andar. De fechar McDonald’s pra gente comer. ‘Sai todo mundo, porque os caras têm que entrar’, senão a galera ia quebrar o lugar. Lembro de a gente estar comendo e o negócio parecer que ia cair. Todo mundo batendo nas portas, querendo entrar. [sua voz se torna tímida] E nós, sentados, no meio daquilo tudo, todos te olhando… e tu lá, comendo. Era a única opção de algum lugar para comer às 3h da manhã…
Cler – Em algumas horas vocês se tornam animais em um Zoo.
tavares – Muito.
Cler – Mas tu vais a supermercado?
Tavares – Sim. Em São Paulo é tranqüilo… [pára e recomeça a sua fala]. Acontece o seguinte: em Porto Alegre sou visto como o cara que foi pra São Paulo e deu certo. Para alguns, chego a ser o ‘vendido’ que foi pra lá. Em São Paulo, eu sou ‘o cara da banda aquela…’ como tem trezentos mil caras ‘da banda aquela’. Claro que tem fã, te param na rua.. e no Rio? No Rio eu virei um cara respeitado [risos].La eu tenho o respeito de uma galera de uma classe cultural bem bacana que me respeita muito e é verdadeiro e recíproco.
Cler – Tu é um cara realizado?
Tavares – Eu sou, cara. Realizado demais. Tenho vários momentos da minha vida em que eu penso que eu sou um filho da puta, que faz muita merda, mas que tem muita sorte.

Meus Prêmios Nick – Porto Alegre – 2008
Cler – Lembro de ter te visto no palco do Meus Prêmios Nick 2008 e vi que tu trata a todos com um carinho muito especial. Há uma retribuição de cima do palco bacana.
Tavares – Mas isso eu aprendi com o Duca. Tu tens que olhar para o cara e retribuir o carinho para aqueles que estão te vendo. Sei que o cara que está no nosso show fica em filas, iguais as que eu ficava para assistir Cidadão Quem. Pega chuva, se fode, passa fome, vontade de ir ao banheiro, está acabado. Mas quando tu entra o cara tira energia sabe Deus da onde e começa a berrar.
E, na outra ponta, nós músicos, passamos o dia inteiro no hotel, tomando cerveja. Depois vamos para um camarim, acompanhados de seguranças. Embora as coisas sejam diferentes, eu reconheço o cara que está ali embaixo, na platéia, porque eu passei por tudo isso.
Hoje, eu toco no Planeta Atlântida para 50 mil pessoas tão feliz quanto eu tocava com a Abril para… doze.
Planeta Atântida: “… Tá começando o dia da realização do nosso sonho” (Lucas)
… E, se daqueles doze, dois conhecessem as músicas, já estava perfeito. E é basicamente isso. Sempre fui de fazer o meu lance e ser compreendido. Parece loucura dizer que é igual. Mas é. Eu estava muito mais nervoso tocando com a Abril para 200 pessoas do que com a Fresno para 60 mil no Mineirão. Hoje a gente não precisa mais provar nada pra ninguém.
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ATENÇÃO: a matéria completa está fragmentada em diversas partes. Para lê-la na integra, clique nos subtítulos abaixo:
- Conheça o novo projeto de Rodrigo Tavares, baixista da Fresno
- Esteban, Sophia e outras histórias
- Você está lendo > “O pessoal do rock está tão careta que não consegue mais se colocar no patamar de ídolo”
- Recados, mais Esteban e Velhas e novas amizades
- Invertendo os papéis: quando o ídolo vira fã: a relação com a Cidadão Quem















