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“Uso minhas músicas para mandar recados”

Sobre a Abril

abril

Tavares - “Abril está hibernando. Fica muito complicado manter duas bandas. Falta de tempo. Seria até antiético. Assumi a Fresno como minha banda e minha prioridade é ela. Minha vida profissional está voltada para isso. Eu não poderia levar a Abril junto porque seria algo como ter uma mulher e uma amante”

Cler – Eu vi no teu fotolog que tu gostaria de ter um álbum temático, a exemplo do que fez Fito Paez. Seria um disco de recados do Esteban?
Tavares –
Sim, seria um mural de recados. É inegável. Olha Sophia.

Cler – Seria teu porta-demônios?
Tavares –
O Esteban é. Muito.

Cler – Tu usa tua música como recado. Isso?
Tavares –
Muito. É só pra isso. Acaba que muitas vezes todo mundo gosta e a pessoa que tu quer atingir tu não consegue.

Cler – E as pessoas para que tu dá esse recado, te dão feedback?
Elas sabem que é pra elas?

Tavares – Tem coisas que eu coloco nas músicas que são muito diretas. Anteontem eu estava assistindo na casa da minha ex-cunhada, o primeiro corte do DVD da Fresno. Estávamos eu, minha ex-cunhada e minha ex-namorada. E a primeira música é Redenção, que eu fiz pra ela, com um ódio mortal. E ela sabe e, eu tenho certeza que ela tomou aquilo como um tiro na época. E ai eu fiquei pensando ‘que situação desgraçada’. Hoje já está resolvido. Quando ganhamos o disco de ouro eu disse para ela ‘parabéns, você virou um disco de ouro. A metade dele é teu e a outra são dos traumas do Lucas’. E o recado já não era apenas uma música, era o nome de um disco todo. E tu faz todo o Brasil ou boa parte dele, saber o que é Redenção. Entende o tamanho desse recado?

Cler – Tá, mas tu manda recado via Fresno e manda recados via Esteban…
Tavares –
Mas com o Esteban é diferente.

Cler – Diferente como?
Tavares –
Com a Fresno, você ouve e diz  ‘putz, estou passando por isso’. Já com o Esteban tu dirias, ‘putz, coitado do cara’, saca? O cara vai para dizer ‘ele está muito pior do que eu’. E não tô.

Cler – Porque tu já resolveu.
Tavares – Não. Na verdade o Esteban é o mal-resolvido. O Esteban é o que não tem solução. Esse é o grande ponto. Nesse projeto são músicas que não encaixam na Fresno, porque as minhas composições são, em primeiro lugar, da Fresno. Já o Esteban acontece quando eu pego um violão e toco uma balada country como Sophia.

Cler – O Esteban é o teu blog.
Tavares – Sim. É o meu blog. Mas nesse sentido, o Fito (Paez) é um blog. A vibe dele era muito blog. Era muito pessoal. Tu não consegue ouvir a música para se identificar, mas sim para pensar que o cara tá mal. E tu canta com ele porque está apoiando. Tu respeita porque é algo muito vivido por ele.

 

Fito Paez

Cler – Fito Paez. Ele é uma baita influência pra ti…
Tavares – Musicalmente acho que não porque eu não conseguiria fazer nada parecido com ele. Mas ele tem a influência por ser o cara. O músico [neste instante o celular dele toca e o toque, pasmem, é Fito Paez]. O Fito é o cara que não faz um falsete bonitinho porque acha que é bonito. Ele toca muito bem. Pra mim é Duca, Humberto (Gessinger) e Fito. Engrandece.

Cler – Quando o cara estabiliza a vida dele, o lado artístico também estabiliza. Tu não teme que quando tu estabilizar o lado emocional o teu lado artístico possa ser afetado?
Tavares – Não. Porque tem que ter drama. Se não tiver drama, eu faço acontecer o drama. Por isso deve ser tão difícil conviver comigo, quem sabe? Pra mim, quanto mais dramático, mais bonito.

Cler – Então o drama não é só coisa de adolescente.. tu estás com 27.
Tavares –
Acho que a minha família toda é assim. Meu pai é assim. Quando eu era pequeno ouvia muito, pelo meu pai, música gaúcha e aí tinha a parte legal da música gaúcha e tinha a parte triste. E a parte triste realmente é muito triste. A lembrança mais triste da minha vida foi quando eu fui embora e eu ouvia a música Um Pito. Aquilo é triste. Aquilo é emo.

Cler – Mas afinal, o que tu quer com Esteban já que tu continuas com a Fresno.
Tavares –
Eu me vejo tocando muito tempo com a Fresno. Infinitamente. Uma banda ainda é uma banda. É lado rock muito forte. O Vavo, o Bel e o Lucas fazem muito parte da minha vida. Não consigo viver sem os caras. Eu não largaria a Fresno porque temos uma relação muito pessoal que impede a banda de se desconectar. O Esteban é um escape, mas eu quero tocar quando eu estiver de férias. Eu quero que as pessoas ouçam. Não quero concorrer com ninguém. Assim como o Lucas tem o Beeshop, um trabalho muito legal em inglês.

Curiosidade: O Fresno ou A Fresno?

“Até Torres é ‘a’ depois de Torres é ‘o’. Já ouviu alguém falar ‘vou no show da Titãs’? Não. Mas tu vai no show da Fresno, mas no Rio Grande do Sul se vai no show da Fresno.” (Tavares)

Cler – Esse teu vôo solo também aprimora o trabalho do Fresno, para agregar coisas diferentes…
Mas o grande lance é que o Lucas fica compondo coisas diferentes e eu também e quando a gente se junta somos o que é a Fresno hoje. Acho que gente funciona muito bem. Trabalhamos muito juntos. As funções são bem definidas. Assim como o Vavo tem a visão empreendedora, eu tenho a visão de composição e trabalhamos, eu e o Lucas, nas músicas.

Cler – Quando tu apresentou teu trabalho na internet, como ele foi recebido?
Eu achei ninguém ia gostar. Sério. Achei que todo mundo ia achar uma merda e perguntar ‘cadê a guitarra e por que o Tavares está fazendo isso?’. Por um tempo eu desencanei do Esteban. Aproveitei uns trechos em algumas composições da Fresno. Estava namorando, fazendo musicas para os outros, nenhuma pra mim. Daí veio um trauma. Pronto: escrevi Sophia. Totalmente despretensioso.

Cler – Tu é movido a traumas?
Tavares – Sim, sim… mas não por ter tido uma infância ruim. Meu problema é relacionamento. Agora está todo mundo falando do Bullying. Olha, graças a Deus, eu nunca fui popular no colégio. Isso me fez virar quem eu sou. Todo o grande cara nunca foi “o cara”. No colégio eu não era nada. Eu sou tão dramático que eu andava com os impopulares. Eu ficava sempre do lado dos nerds e dos excluídos. E era muito mais legal. Eu tinha certeza que o futuro dos ditos populares poderia ter um fim trágico e os caras que não eram muito populares evoluíram muito mais.

Procura-se por Adriano!

cler – Tu quando falou em impopulares, me fez lembrar que, quando nos conhecemos, há dez anos, tu andava pra cima e pra baixo, com um menino que utilizava um óculos enorme.

Tavares – [ele imediatamente muda de posição e é tomado por um rompante de excitação e euforia] Cara, o Adriano! O dia em que eu me reencontrar com ele será o dia mais feliz da minha vida. Ele é o cara mais importante da minha adolescência inteira. Era o meu melhor amigo. E hoje eu uso um óculos igual em homenagem a ele [e começa a se mexer na cama e revirar a mochila a procura dos óculos sem muito sucesso].

tavares

EU USO MEUS ÓCULOS EM HOMENAGEM AO ADRIANO!!!!!!

Tavares – Eramos uma turma: eu, o Adriano, o Rafael e o Willy. Todos do Vera Cruz  A gente era o front do contra. A gente era os palestinos do colégio. [de repente ele para, respira, como se fosse passar mal caso não desse essa parada a si mesmo...] putz… o Adriano. Que loucura… [longo suspiro] É um cara que era muito ingênuo e a galera do colégio não falava direito com ele, mas éramos muito amigos. Íamos a shows juntos e, depois, ele virou mendigo por opção. Era um cara muito inteligente. Extremamente. Um dos mais inteligentes que eu conheci na minha vida.

Cler -Ele saiu pelo mundo?
Tavares –
Eu não sei onde esse cara tá. Eu tentei falar com a irmã dele…acho que última vez que o vi foi em 2004, mas… olha… vou te dizer uma coisa… [pára e muda completamente o raciocínio]. O Luciano (Leindecker, Cidadão Quem) dava aula de baixo pra ele.

Cler – Quando tu fala do teu passado, dos teus amigos, tu fala com muita paixão.
Tavares –
Mas, cara, quem dos meus amigos que nunca acreditou em mim? Quem falou ‘não vai rolar’? De todos os meus amigos, ninguém nunca disse que não iria dar certo. Até mesmo o Duca, meu grande ídolo, disse: ‘meu, vai rolar!’.

Cler – Tu e o Lucas, são muito amigos…

tavares-e-lucas

Muito. Nossa… até mais do que se imagina. É muito estranho. A gente já gostava pra caralho,mas não nos dávamos tão bem. Não eramos parte do mesmo grupo de amigos. Então nos encontrávamos ocasionalmente e conversávamos… até que um dia a gente se falou e resolvemos gravar algumas coisas juntos, depois da Fresno. Era sempre assim: produzia um disco e depois perdíamos o contato. Um dia, a gente se encontrou pra gravar lá em casa e reatamos a amizade e começamos a nos falar direto, fomos para São Paulo e ai, rolou.

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